Crônica de uma pandemia anunciada parte IX

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São Paulo, 24 de agosto de 2020.

Seguimos rumo setembro, mês de início da primavera que deve trazer maiores lampejos de esperança e boas notícias com relação à fármacos e vacinas para amenizar a pandemia.

Por aqui, como diria Napoleão Bonaparte e os portugueses que sofreram invasão das tropas francesas, segue tudo como “Dantes no quartel de Abrantes”, ou seja, nada mudou. Pelo menos em termos gerenciais do ponto de vista governamental.

Depois do término forçado dos campeonatos de futebol estaduais, tivemos o retorno longe do bom senso do campeonato nacional com suas diferentes divisões.

A CBF – Confederação Brasileira de Futebol, mas cuja alcunha é Casa Bandida do Futebol, achou (e continua a achar) que já era hora de a bola rolar.

Em 4 dias, times e cartolas foram driblados pelo vírus e o resultado foram “apenas” 40 atletas contaminados. O número continua crescente conforme os jogos e viagens vão acontecendo.

E os absurdos seguem…

O Brasil, dito da boca para fora um país cujo estado é laico, mas possui uma bancada evangélica conservadora pesada, mas uma vez permitiu a intromissão da religião na vida das pessoas.

Em plena pandemia de um vírus com alto poder de contágio e contaminação, pessoas que se dizem religiosas fizeram vigília na porta de um hospital público, para impedir que uma menina de 10 anos, que era estuprada há 4 por um tio fizesse um aborto.

Brasil, país onde o aborto é proibido.

Brasil, país onde mais 1300 mulheres abortam diariamente de maneira clandestina colocando sua integridade em risco.

Brasil, país onde um estupro é cometido a cada oito minutos.

Brasil, país onde há 180 casos de estupros por dia.

Brasil, país onde há mais de 65 mil casos de estupros anualmente.

Brasil, país onde um aborto, incomoda mais do que estupros.

Após todo o trauma, a menina felizmente passou pelo procedimento, e por conta de toda exposição, com dados provavelmente vazados por órgãos federais, receberá nova identidade e novo endereço.

Como se já não bastassem os absurdos, o atual governo segue com seu plano de desinformação a todo vapor, com a taxação de livros e corte de 4,2 bilhões na educação para 2021.

O que esperar de um governo que facilita o acesso às armas e dificulta o acesso à leitura  e sucateia a educação?

Governo esse, que não usa todas as verbas destinadas à saúde, mas que ao distribuir um auxílio emergencial cujas cifras foram conseguidas pela oposição vê sua popularidade aumentar.

É trágico e cômico ao mesmo tempo, afinal na política parecer é tão importante quanto ser ou fazer. O que faz aumentar o pesadelo daqueles que (acreditam que) têm bom senso.

Enquanto isso, a oposição continua com sua resistência lacradora que alcança somente os seus iguais, colaborando ainda mais para o aumento da polarização de um país mais do que dividido.

Na ânsia eleitoral prefeituras baixam decretos para agradar seus eleitores, e as “fases de abertura” se mostram cada vez mais fantasiosas.

A pandemia que jogou muita gente despreparada ao home office, prejudicou o ensino e  a vida das crianças, mas serviu para mostrar para os pais como sofrem os professores, que além de ensinar, muitas vezes abraçam o papel de educar.

O Brasil segue em uma estabilidade numérica assustadora de mortos. Diariamente mais de 1000 brasileiros se vão, mas muitos parecem ter normalizado essa perda.

Ainda há muita negligência, negacionismo e piadas que cessam até que alguém da família seja infectado.

Ainda sem Ministro da Saúde diante da maior pandemia do século, o povo segue literalmente abandonado a própria sorte.

Se levamos cinco meses para atingir 100 mil mortos, tudo indica que esse número pode dobrar em três meses e tudo isso enquanto o brasileiro, que chorava e rezava pelos mortos da Europa, vai à academia, faz churrasco com os amigos e frequenta cultos e missas que foram autorizados politicamente.

Seguimos na vice liderança de óbitos, próximos das 115 mil vidas perdidas, e já ultrapassamos a cada dos 3,5 milhões de infectados. Isso, em números “oficiais” – importante ressaltar.

Parece um roteiro de filme ou série de ficção científica, mas é apenas a atual realidade do brasileiro.

Foto de capa: Adriano Machado/Reuters.

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