Crônica de uma pandemia anunciada parte VIII

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São Paulo, 10 de agosto de 2020

Sigo isolado, trabalhando de casa e com o pensamento dividido no que diz respeito aos dias atuais. É um dia a mais de pandemia ou um dia a menos para a chegada de uma vacina?

Hoje em dia é possível reconhecer quem ainda respeita o distanciamento social através de simples constatações: O silêncio, pelo cansaço do debate contra negacionistas e passadores de pano, junto a um semblante inevitável de derrota.

Notícias otimistas sobre vacinas começam a crescer ao mesmo tempo que países de primeiro mundo, começam a demonstrar indícios de que irão monopolizar as doses.

Outro ponto importante com relação à imunização é que não basta ter uma vacina eficaz, é preciso um plano adequado e igualitário de distribuição.

Ainda em termos mundiais, o Brasil foi colocado junto a México e EUA em uma seleta lista de nações consideradas como ameaças devido aos seus altos números de casos. De acordo com especialistas, essa grande quantidade de infectados é capaz de realimentar a pandemia onde antes já havia sido controlada.

Em nosso território, seguimos sem mudanças. A maior novidade é a nota de R$ 200.

O valor é para lembrar a cifra que o ministro da economia e o presidente queriam pagar de auxílio emergencial aos brasileiros.

A nova nota chega em momento oportuno, afinal, ela reforça mais do que nunca o baixo poder de compra do brasileiro, que cresce dia a após dia. Isso sem falarmos em inflação.

O governo atual, eleito sob críticas aos altos impostos pagos pelos brasileiros, propõe agora uma a criação de uma “nova” CPMF sobre movimentações virtuais. O destino dessa arrecadação ainda não foi indicado pelo “super” ministro Paulo Guedes, que apenas deseja “taxar”

Como de praxe por aqui, se passar, essa nova tributação atinge o bolso dos mais vulneráveis. Os mais ricos seguem ser incomodados quando o se fala em impostos e taxações.

Ao se enxergarem nos representantes políticos, os conhecidos cidadãos de bem cada vez mais saem do armário. Episódios de abuso de autoridade, violência doméstica e racismo seguem mais frequentes do que nunca, em um país sério, seus autores seriam presos e responderiam por seus atos.

Com números de casos e mortes ainda crescentes, carreatas pedem o retorno de aulas escolares presenciais, academias reabrem com marketing demais e segurança sanitária de menos e condomínios permitem a abertura de espaços coletivos. Isso, sem contar a ida às compras para “desestressar”.

O teatro de aferição de temperatura, limpeza dos pés, álcool em gel e túneis de desinfecção, vai se tornando cada vez mais raro.

O país virou um campo de testes para uma série de vacinas. O motivo? A incapacidade de manter a pandemia sob controle.

O presidente ironiza a vacina chinesa e o ministério da saúde segue sem um responsável pela pasta.

Atingimos um platô de estabilidade com cerca de mil mortes diárias, distante do que pode ser considerado normal. As “novas” flexibilizações ocorrem por conta da impaciência dos governantes perante às reclamações de seus eleitores, fruto de um distanciamento social erroneamente executado.

Depois da cloroquina e da ivermectina, os não especialistas defendem agora o uso de cânfora e aplicação de ozônio via retal para combater a Covid-19.

A doença considerada apenas uma gripezinha, possui hoje uma alta taxa de letalidade entre os brasileiros, ficando atrás apenas de problemas isquêmicos do coração.

No momento em que “oficialmente” cem mil vidas brasileiras foram ceifadas pela doença, o povo parece ter normalizado a doença.

Em minha cidade natal, por exemplo, após o final do campeonato paulista, o que se ouvia e via eram rojões e comemorações. O que faz parecer que cem mil, na verdade era uma meta a ser alcançada.

Brasil e EUA são os únicos com óbitos acima da casa dos cem mil. países com padrões administrativos semelhantes, colhem resultados parelhos.

“Vamos chegar aos cem mil mortos, mas vamos tocar a vida e se safar do problema”, disse o então presidente do Brasil.

E assim chegamos aos três milhões de infectados. Cem mil mortes. Cem mil vidas. E um país literalmente sem luto, ainda distante do fim da luta contra a pandemia, que já parece ter sido abandonada por governantes e população.

Imagem: Nelson Almeida/AFP

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