Crônica de uma pandemia anunciada parte VI

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São Paulo, 13 de julho de 2020

Estou oficialmente há mais de 4 meses em um isolamento/distanciamento social cumprido por uma minoria cada vez maior.

Ao reler minhas crônicas anteriores e voltar meus olhos para as notícias diárias vejo que o vivemos, principalmente no Brasil é cada vez mais parecido com um roteiro de filme (ou série) de ficção.

Defendi um lockdown ainda no início da chegada da pandemia por aqui. Seria uma forma eficaz de manter a doença sob controle e evitar sobrecargas no sistema de saúde, além de acelerar a retomada econômica.

Ter que enfrentar uma pandemia não é algo fácil. Entretanto, não acredito que existiria pior momento para enfrentá-la: Às vésperas de eleições municipais.

Sem um presidente capacitado, com governadores desorientados e prefeitos munidos de vereadores querendo agradar seus eleitores e “financiadores” de campanha, não é absurdo afirmar que cada município vem gerindo a pandemia da forma como bem entender, afinal, tomar medidas “impopulares” não geram votos e protelam a duração da curva ascendente de contaminação.

As cidades do interior já são responsáveis pela maioria dos novos casos e mortes.

No dia 9 de julho, de acordo com dados da OMS, o Brasil, com população de 210 milhões de pessoas atingiu a marca de 68.355 mortes, enquanto a América do Sul, sem o Brasil, com uma população de 219 milhões de habitantes chegou a 29.516 vítimas.

É preciso ficar em casa, bradam alguns, preciso trabalhar dizem outros!

Como julgar uma pessoa que precisa sair de casa para não morrer de fome?

Isso me faz pensar na seguinte situação: nosso país dispõe hoje de um fundo partidário de R$ 2 bilhões para que partidos gastem como bem entenderem. Esse montante poderia ser utilizado em prol dos mais necessitados nesse momento.

O Brasil, é literalmente um grande jogo de tabuleiro, onde vidas são apostadas e consequentemente perdidas.

Em um momento de crise de saúde pública, o brasileiro prefere manter as questões políticas como um campo de batalha. São nessas situações que as pessoas mostram o que têm de pior e de melhor.

Já dizia Edmund Burke: Um povo que não conhece a sua história, está condenado a repeti-la.

Às vésperas de uma vacina fabricada na China começar a ser testada no Brasil, não é difícil encontrar pessoas afirmando que jamais farão uso desse tipo de proteção imunológica.

Ao que tudo indica, o brasileiro pode protagonizar pela segunda vez, um episódio de revolta da vacina. E meu autoquestionamento nessa bagunça toda é: Quando o brasileiro emburreceu dessa maneira?

E como se tudo isso não bastasse, após afirmar no dia 20 março que poderia ter sido infectado pelo novo coronavírus, o então presidente do Brasil afirmou no dia 7 de julho estar com Covid19.

Embora estejam sendo combatidas, para o atual governo brasileiro, fake news são regras e não exceções. Por isso, após o presidente ter sido convocado a prestar depoimento na PF, é difícil que uma teoria da conspiração não surja ao redor dessa “infecção”.

Como já era de se esperar, o recém-infectado Jair Messias Bolsonaro, divulgou em suas redes que está fazendo uso de hidroxicloroquina. Medicamento que não possui comprovação científica no combate à Covid-19.

E por falar nisso, enquanto sedativos começam a faltar nos hospitais, matérias revelam que o Brasil possui hoje um estoque de hidroxicloroquina para 18 anos. Investigações iniciais sugerem um superfaturamento para a produção da droga pelo laboratório do exército.

A exemplo do que ocorre nos EUA, a pandemia por aqui ainda segue em sua primeira onda, um verdadeiro tsunami descontrolado.

Hoje, o Brasil possui as infelizes marcas de quase 2 milhões de infectados e mais de 72 mil vidas perdidas. Isso sem levarmos em conta as subnotificações. Junto a esses números, sigo contando também, os dias sem ministro da saúde. Já são 58.

Os mais religiosos afirmam que é preciso ter fé e que essa pandemia é um castigo divino.

Eu como profissional da saúde, afirmo que se não cessarmos o desmatamento e pararmos de explorar e consumir animais, podemos enfrentar pandemias ainda mais severas, com intervalos de tempo ainda menores.

Ainda falando sobre fé, se tem algo que a pandemia me fez perder foi a credulidade, principalmente nas pessoas.

Alcançamos enfim, a segunda metade de 2020, sem deixarmos de ter esperança, mas com os dois pés bem firmes no chão.

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