Crônica de uma pandemia anunciada parte V

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São Paulo, 29 de junho de 2020

Já não sei em qual dia do isolamento social estou, depois que alcancei o centésimo dia, deixei essa contabilidade de lado.

Impossível não se sentir um idiota ao permanecer em casa enquanto o que se vê é uma queda cada vez maior dos índices de isolamento social.

Amigos – que inclusive são profissionais da saúde, se aglomeram, saem de casa e afirmam num tremendo ato de auto engano (ou autossabotagem): “É só usar a máscara que está tudo bem”.

Ao debater com amigos em grupos de mensagens expondo minhas opiniões embasadas cientificamente sou agredido verbalmente.

Embora esteja morando na capital, minha mãe e sogra seguem vivendo no interior e embora já faça um tempo que tenha deixado as redes sociais um pouco de lado, recentemente optei por stalkear o que tem se passado em minha terra natal.

Pessoas que conheço e tinha contato até pouco tempo atrás destilam ódio sem pudor. A bile escorre baseada em achismos e fake news com total ausência de educação ou respeito. Um retrato fiel do Brasil atual.

Notícias mostram como é difícil se livrar do vírus. Há novos casos e pequenas ondas de infecções em locais onde a Covid-19 já havia sido controlada.

A nova doença tem se mostrado com um grande potencial para se tornar endêmica. No futuro próximo, seremos anualmente vacinados contra Influenza e contra Covid.

Em âmbito mundial, líderes buscam uma solução para diminuir os números de novos infectados e mortos. Vacinas, medicamentos são os principais, mas o presidente estadunidense tem uma ideia ainda melhor: Restringir o número de testes, afinal quanto menos se testa menores são as quantidades de novos casos.

A cada dia que passa, sinto que que os brasileiros foram abandonados à própria sorte.

Em meio a um problema de saúde pública, as pessoas se negam a debater e compreender questões políticas. O que me leva cada dia a crer ainda mais que a ignorância é uma dádiva.

Com 200 casos confirmados, o brasileiro estocava papel higiênico. Com um 1 milhão de casos, o brasileiro vai ao shopping.

E por falar em 1 milhão, assim que alcançamos o ingrato número em termos de infecção, nada mais óbvio para simbolizar nosso destino do que vazio literal em termos de Saúde, educação e cultura. Coisas de grande valor para se combater uma pandemia.

Acostumado com o Home Office há 6 anos, sinto meu trabalho não render somado à uma procrastinação nunca vista.

O estado de calamidade pública decretado por conta da pandemia, permite aos políticos de todas as esferas comprar sem licitações o que bem entenderem por qualquer preço, há uma enxurrada recente de fraudes e superfaturamentos que terminará em pizza.

O ex-ministro da educação, depois de “quebrar” um banco privado, ofender o STF, se tornar réu no inquérito das fake news e literalmente destruir a educação brasileira, foge para os EUA ajudado e indicado pelo presidente para ocupar um cargo no Banco Mundial.

Já o novo ministro da educação, mente e maquia seu currículo, dizendo ter um título inexistente de doutor. Uma literal continuidade e sintonia com seu antecessor, além de um retrato fiel do nosso governo federal.

O ministro da economia, continua se mostrando um mero fantoche dos grandes empresários sonegadores de impostos.

Além de sermos epicentro da pandemia, temos uma nova linhagem de Zika Vírus em circulação e uma ameaça iminente de invasão por gafanhotos.

Respiro fundo, pois ainda há espaço para mais.

Na última quinta-feira, o Senado aprovou na última quinta-feira o PL 3.261/2019 – que permite a privatização do saneamento. É o estado se redimindo de prestar um serviço ao qual a população tem direito.

Com isso, a “responsabilidade” ficará nas mãos da iniciativa privada, que não cobrará barato por esse tipo de serviço. Nossos governantes conseguiram privatizar até a água.

O presidente, ao invés de agir, prefere afagar o amigo e ex-assessor de seu filho senador que foi preso escondido na casa de seu advogado.

Enquanto isso, ultrapassamos a casa de 1,3 milhões de infectados e nos aproximamos de 60 mil vidas brasileiras perdidas.

No Brasil, tem sido cada um por si, e assim será por muito tempo.

*Imagem: Zanone Fraissat – Folha Press.

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