Crônica de uma pandemia anunciada parte IV

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São Paulo, 15 de junho de 2020

Chego ao 93º dia de isolamento social, que não é praticado por muita gente.

No início do mês cumpri com minha obrigação, fiz minha declaração de Imposto de Renda e precisei pagar uma determinada quantia ao governo.

De acordo com pesquisas, o dinheiro do I.R é destinado a projetos de saúde, educação e programas sociais.

Entretanto, é cada vez mais claro que estamos sem educação e projetos sociais são escassos. Então o dinheiro iria para saúde, certo? Não tenho tanta certeza, afinal o congresso aprovou um fundo de R$ 8,6 milhões para combater a pandemia, mas o presidente optou por vetá-lo e consequentemente não utilizá-lo.

Acredito então, que o dinheiro que paguei provavelmente será usado pela SECOM em propagandas do governo em sites ilegais de apostas ou de pornografia.

A pandemia escancara mais do que nunca a desigualdade social e o racismo.

Madames continuam fazendo unha em casa e exigindo a presença de empregadas domésticas que lotam o transporte público.

Crianças morrem por conta do descaso.

O racismo está mais explícito do que nunca, bradam alguns. Na verdade, os racistas saíram do armário, pois se veem em seus governantes, principalmente no Brasil e nos EUA. Combatê-los é crucial.

Estátuas dedicadas a racistas caem, é o início da reparação de uma injustiça história. Que precisa continuar após a pandemia.

Com uma escalada de novos casos, governos estaduais e municipais liberam uma flexibilização de um distanciamento que sequer existiu, causando uma corrida suicída rumo aos shoppings.

Estudos demonstram que cada dia sem distanciamento social aumenta em 2,4 dias o surto de Covid-19. O brasileiro parece querer ficar para sempre na pandemia. O sistema de saúde e recuperação da economia não agradecem.

O presidente, querendo manter o numeral de óbitos diários abaixo dos mil, tira o portal de controle da doença do ar e o recoloca com uma contagem dúbia.

Veículos de comunicação se unem então, para informar corretamente o número de novos casos de infecção e mortes diárias.

Por conta dessa interferência governamental, o Brasil se junta a países “democráticos” na divulgação dos números da pandemia e agora faz parte de uma lista seleta, onde seus membros não gozam de credibilidade perante a órgãos como OMS e ONU.

Na lista, nos faz companhia apenas Coreia do Norte e Venezuela.

A ascendência de mortes não para. Já somos medalha de prata em números de casos e óbitos.

Beiramos os 900 mil infectados e já temos mais de 43 mil mortes. Fora a subnotificação, importante lembrar. Temos atualmente um trágico ritmo médio de uma morte por minuto.

E ainda temos que ouvir do nosso presidente que é a morte é algo natural, afinal, segundo ele, vamos todos morrer mesmo.

Estamos em uma pandemia e ainda não temos ministro da saúde.

E como se tudo isso não bastasse, agora há incitação presidencial de se invadir hospitais de referência e de campanha para o tratamento de Covid-19, para que se filmem leitos a fim de se comprovar a existência da doença.

Para os que passam pano, e esses são muitos, os números do Brasil são grandes pois o país tem tamanho continental.

A América do Sul tinha no dia 8 de junho, segundo a OMS 12.592 mortos entre 219 milhões de habitantes, enquanto o Brasil com seus 210 milhões de brasileiros amargava os 36.505 mortos.

No entanto, nem tudo é ruim. Há esperança…

O Tribunal de Haia, no Reino dos Países Baixos irá analisar uma denúncia contra o então presidente do Brasil, por não tomar providências para combater a pandemia, um claro crime contra a humanidade.

O mesmo cidadão, também é acusado na Corte Interamericana de Direitos Humanos.

E assim seguimos, nos apoiando principalmente em arte, cultura e amor.

E por falar em amor, em meio a tanta coisa ruim, ele, ou melhor, ela surgiu em nossa casa, sob a forma canina, sem raça definida e atendendo pelo nome de “Polenta”. Uma adoção repleta de amor em tempos tão difíceis.

Mas nem tudo são más notícias. O Brasil, por conta de sua incapacidade de lidar com a pandemia, será campo de testes de vacinas.

Parece haver uma luz no fim do túnel, bem lá no fundo… Que sejamos capazes de caminhar em sua direção.

*Imagem: Getty Images

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